“Queen Sugar” é uma série feita por mulheres sobre racismo e machismo

Queen Sugar é uma série de TV americana criada por Ava DuVernay, produzida por Oprah Winfrey e adaptada do romance de Natalie Baszile. Neste seriado, DuVernay retoma temas que lhe são caros e que já estavam presentes em seus dois primeiros longas ficcionais: I Will Follow (2010) que trata de relações familiares após a perda materna e Middle of Nowhere (2012) sobre amor e ódio permeado pelo sistema penitenciário norte-americano. Somando estes ao extraordinário trabalho documental realizado em A 13ª Emenda (2016), que escancara o esqueleto que sustenta a sociedade estadunidense sob um perverso sistema de encarceramento de pessoas negras que remete aos tempos escravagistas, Ava decidir adaptar o romance de Natalie Baszile transpondo para o melodrama episódico aquilo que já havia alcançado seu ápice com o aclamado Selma (2014).
 
Com todo o cuidado e apuro estético necessário ao que o tema pede, aliado a atuações fenomenais (destaque para as atrizes Rutina Wesley, Dawn-Lyen Gardner e Tina Lifford) Ava joga para o grande público uma novela que tem como motor a disputa racial milenar que constitui a nação hoje governada por Trump. Não poderia haver época mais oportuna para esta série estar sendo veiculada. Mas o mérito de Ava e Oprah não está apenas naquilo que vemos como resultado final. 
 

O processo para alcançar o ótimo resultado de Queen Sugar também se pretende revolucionário. Todos os episódios da série são dirigidos por mulheres (em sua maioria negras) fazendo parte de uma declaração política da cineasta de que há inúmeros profissionais negras e negros excelentes na indústria audiovisual a espera apenas de oportunidade.

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Kofi Siriboe, Rutina Wesley e Dawn-Lyen Gardner (protagonistas da série)

Chamo a atenção para a direção do terceiro episódio da segunda temporada comandado por Aurora Guerrero que foi destaque de alguns festivais importantes como o Independent Spirit Awards com seu primeiro longa-metragem Mosquita y Mari (2012) de temática lésbica; além do décimo episódio da primeira temporada, que é o grande ponto de virada da série, dirigido por Salli Richardson-Whitfield.

Se já não bastassem todos esses motivos para estarmos atentos a este seriado, Ava cria um universo atual para tratar de opressões que se atravessam há séculos como o racismo e o machismo. A construção das personagens em termos de gênero e raça subverte aquelas que costumeiramente são vistas em produções deste porte, com uma ótima percepção de inversão de padrões de masculinidade e feminilidade geralmente estereotipadas nas telas. Realmente, Queen sugar é uma grata surpresa no universo televisivo.

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