“Jackie” e a invenção do primeiro-damismo

por Ana Flávia Gerhardt*

Num apertado corredor de avião, um homem de meia-idade faz um juramento com a mão sobre a bíblia. À sua esquerda, sua esposa, também de meia-idade. À sua direita, uma jovem mulher vestindo um tailleur Chanel manchado de um sangue que também pode ser visto em seu rosto, mãos e pernas. Ninguém sorri. Todos ainda estão perplexos com o fato de que horas antes ninguém pensaria que aquela cena ocorreria. Dentre eles, a mais perplexa é, sem dúvida, a jovem de Chanel, não apenas porque tinha acabado de carregar o cérebro explodido de seu marido em seu colo, mas também porque testemunha o momento em que se torna completamente descartável. Não é à toa que está à esquerda.

O filme Jackie (2016), do diretor chileno Pablo Larraín, é o estudo de uma personagem no momento em que se torna descartável. Mas também é a história de uma invenção – a invenção do primeiro-damismo, por essa mesma personagem, como forma de continuar a existir, resistir ao descarte. Assistimos, ao longo do filme, aos fatos e condições que motivaram sua invenção: as consequências inesperadas e trágicas das escolhas feitas por ela ao casar-se com um presidente de uma sociedade branca e masculina, portanto, estando ele morto, as decisões precisam ser tomadas rápido, porque seu tempo é o tempo que dura um funeral. O que nem ela nem as pessoas da época sabiam é que o resultado dessas decisões inventou uma nova forma de ser mulher numa sociedade machista e patriarcal: mais especificamente, a posição de maior sucesso que uma mulher pode obter numa sociedade machista e patriarcal: a de primeira-dama.

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Antes, o que havia era aquilo descrito pela própria personagem Jackie como as duas únicas opções de uma mulher que deseja ter algum “poder”: “há dois tipos de mulheres: as que querem poder no mundo e as que querem poder na cama”, diz ela, enunciando a frase mais importante de um filme também importante. Sem condições de ter poder na cama por conta da natureza infiel de seu marido, Jackie, pelo que o filme indica, acreditava ter poder no mundo, mas, após a cena no corredor do avião, o fato de que estava descartada ainda era algo com que precisava aprender a lidar. Portanto, inventar o primeiro-damismo foi uma saída genial, uma terceira via, para não se tornar aquilo em que a esposa de Abraham Lincoln se tornara: pobre e esquecida.

É uma situação interessante, que justifica plenamente a existência de um filme: Jackie e John Kennedy se complementavam: Jackie transformava Kennedy num presidente diferenciado; mas, com sua morte, ela se tornou igual a todas as outras mulheres do mundo. Provavelmente, as coisas eram assim porque tudo se tratava de imagem pública, algo que também não estava fora da compreensão de todos ali: “é porque somos bonitos”, reconhece Bob Kennedy. Por isso, a tragédia de Jackie era dupla: é muito trágico sustentar sua vida numa imagem pública. E é muito trágico existir em função e referência a outra pessoa.

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A ideia que teve de transformar o enterro do marido, um presidente sem brilho político e administrativo, numa reprodução do enterro de Abraham Lincoln, o presidente mais amado da história dos Estados Unidos, ocasionou a entrada do primeiro-damismo no imaginário do mundo ocidental, algo que, preciso reconhecer, só poderia ter sido inventado porque já havia, na década de sessenta do século vinte, possibilidades tecnológicas para expandir as imagens gloriosas das primeiras-damas em inúmeros momentos familiares e sociais. Sabedora dessas possibilidades, e manejando-as de forma literalmente espetacular, Jackie mostrou ao mundo a força e o alcance de uma imagem: mostrou que a imagem pode mais que o poder. E deu certo, porque o verniz que passou em si mesma durou tempo suficiente para que todos depois a avaliassem como uma pessoa melhoradora da imagem alheia.

Mas preciso abrir parênteses para falar de Natalie Portman, que demonstra ter completo entendimento de que sua personagem é um ser que se desdobra entre personas públicas e privadas, e que se depara com a dissolução completa da estrutura que criou. É uma atriz interpretando outra atriz que interpreta vários papeis ao mesmo tempo. Observando as várias camadas dessa personagem, reconheço uma mulher jovem no auge do seu talento e conhecimento artístico, e isso me salta aos olhos, por exemplo, quando comparo seu desempenho afetadíssimo e artificial na gravação em preto e branco, o que retira ainda mais o estatuto de real daquelas imagens, à confissão aberta e franca de seus medos e decepções mais profundos junto ao padre vivido pelo cada vez mais saudoso John Hurt. É impressionante como uma artista tão jovem chega a esse nível de competência e entrega. E é acertadíssima a escolha de uma atriz dessa envergadura para interpretar uma das inventoras mais geniais do século vinte.

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O primeiro-damismo depois desdobrou-se para outros regimes políticos, e se tornou uma categoria radial: a partir de um centro categorial em que elementos como elegância e estilo fashion influenciador são obrigatórios, as primeiras-damas se tornam livres para criar seu próprio modus operandi, atuando em causas sociais, como Diana Spencer, ou conferindo à posição um verniz intelectual, como Michelle Obama. A criação desse MO é condição crucial para que elas existam de forma menos colada à do marido, porque, de outra forma, não conseguem ser mais do que Marcela Temer, uma pessoa que está ali apenas para atrair os holofotes para que seu pusilânime marido seja fotografado.

Outra expansão da categoria diz respeito ao estrato social em que ele foi inventado. Hoje a ideia de que primeiras-damas são mulheres ricas deixou de ser obrigatória, tornando ainda mais importante a condição de que seus maridos ou companheiros sejam homens de poder. É por esse motivo que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro tem primeiras-damas.

Evidentemente, ser uma primeira-dama é uma escolha de cada uma. Depende de como cada mulher compreende o que é ter poder no mundo. E é claro que essa compreensão está atravessada não apenas pelo tempo, mas pelo lugar, pelas condições educacionais e pelo diálogo crítico do machismo e da misoginia, ações que vão permitir que as mulheres possam abrir seu leque de possibilidades de vida para além de ter poder na cama, e expandam a ideia de ter poder no mundo para além da imagem, ou do luxo, ou da fama, que era o que estava na mente da personagem Jackie.

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Por isso, em todos esses sentidos, me surpreendi muito positivamente com Jackie e pelo magnífico trabalho realizado por todos os envolvidos na produção, que manifestaram um respeito profundo por uma mulher que, mesmo com todo o destaque e todo o glamour, era uma mulher de seu tempo e lugar, e buscou as soluções de vida que lhe eram possíveis. Cabe a nós mulheres, em nosso tempo e lugar, buscar outras formas de viver que sejam mais potencializadoras, vidas com real poder de ação e decisão no mundo, a fim de que aberrações como o primeiro-damismo e outros processos de invisibilidade feminina sejam invenções do passado.

* Ana Flávia Gerhardt é professora de língua portuguesa da UFRJ, linguista aplicada e cinéfila.

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