“O Apartamento” e o paradoxo da vulnerabilidade do corpo feminino

por Ana Flávia Gerhardt*

Uma das grandes contribuições epistemológicas que o feminismo trouxe para a formulação do pensamento contemporâneo é a consideração do corpo como categoria de análise nas investigações sobre as sociedades contemporâneas. Hoje podemos considerar que o gênero e a raça, duas categorias relacionadas ao corpo, são os pilares da construção dos modos de pensamento da humanidade, não apenas do tempo atual, mas de todos os tempos, e essa premissa nos permite reconstruir nossa história tendo em vista outros agentes, outros valores, outras posições: outro passado, enfim.

Recentemente, assisti a dois filmes em que os modos de apresentação e comportamento do nosso corpo são meios de regulação e regulamentação social: um deles é Equals (2015, Drake Doremus), ficção científica distópica em que a manifestação das emoções e sentimentos, considerados os causadores de todas as mazelas humanas, havia sido banida da vida pública e privada de uma sociedade pós-apocalíptica, o que levava inclusive à proscrição de qualquer forma de contato físico entre as pessoas. Situação-limite de um continuum que podemos constatar em todas as sociedades, onde o corpo invariavelmente é tratado como valor moral e ético, seja de maneira positiva, seja negativa, Equals nos avisa que em algum momento podemos perder a mão em nossa percepção de que nossa espécie perdurará se pudermos controlar e definir previamente como nosso corpo se comportará e reagirá, sobretudo em relação a a outros corpos, através do atravessamento de valores morais como preservação e proteção, e valores materiais como a propriedade. Alguns corpos valem mais que outros; alguns corpos podem possuir outros; a vontade e a posse sobre o próprio corpo é dada a alguns indivíduos, mas não a outros; alguns indivíduos podem permitir que outros vejam seus corpos, mas outros não; alguns indivíduos precisam proteger e defender os corpos alheios; alguns indivíduos contam com outros para que seus corpos sejam protegidos e defendidos.

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Leis foram criadas para regular os corpos: a violação do corpo alheio (e de alguns espaços que ele ocupa) é punida com mais ou menos rigor, dependendo da sociedade. E não se pense que a percepção da gravidade dessa violação é percebida de forma linear e progressiva; recentemente, na Rússia, abrandaram-se as leis contra o abuso infantil, sob a alegação de que algumas crianças acusavam seus pais de abuso para não mais morar com eles (uma clara inversão de valores: como se o parâmetro para a definição das leis fosse as pessoas que as infringem, e não as pessoas que precisam ser protegidas por elas), o que representa um passo atrás no esforço de proteção legal aos corpos mais vulneráveis. 

O corpo feminino é um desses corpos vulneráveis, mas essa vulnerabilidade paradoxalmente convive com a suspeita do agenciamento da própria violação, e não raro com a desconfiança de que alguma alegada violação realmente aconteceu: mulheres violadas frequentemente são desacreditadas: de vítimas, passam a ser vistas como provocadoras da violação, e isso quando se dá credibilidade ao fato narrado: o estupro denunciado pela atriz Maria Schneider durante o filme O último Tango em Paris (1972) foi ignorado por décadas, até que, anos após sua morte, o diretor Bernardo Bertolucci confirmou sua história, e assim todos resolveram dar ouvidos à vítima (se você um dia tiver estômago para assistir a esse filme, não se esqueça de que presenciará um estupro de verdade).

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Rana, a esposa violada de O apartamento (2016, Asghar Farhadi), tem pleno conhecimento de tudo isso que eu disse acima. Todas nós mulheres sabemos. Por isso age como age; se lembra do que convém relatar; e supera o que é necessário superar, já que a denúncia do que lhe aconteceu resultará, numa sociedade teocrática como a iraniana, nos efeitos que bem conhecemos: humilhação e descrédito, para sempre. A quem possa afirmar que seu devotado marido irá protegê-la, poupá-la daquilo que já testemunhamos tantas vezes, na vida real e em outros filmes sobre o assunto – o que me vem à memória é o excelente Te doy mis ojos (2003, Icíar Bollaín) –, é necessário dizer que, numa sociedade machista e calcada no patriarcado sacramentado por uma religião igualmente machista (e qual não é), nada nem ninguém nos protegerá. Porque uma sociedade em que algumas pessoas precisam ser protegidas contra outras é uma sociedade em que ninguém nunca estará protegido.

* Ana Flávia Gerhardt é professora de língua portuguesa da UFRJ, linguista aplicada e cinéfila.

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