Uma questão de enquadre: as mulheres de “Manchester à Beira-Mar”

“As mulheres ainda são tratadas como cidadãs de segunda no que diz respeito à maioria dos filmes de Hollywood” (Brent Lang, Variety, 2015)

Manchester à Beira-Mar (Manchester By the Sea, 2015), de Kenneth Lonergan, não é apenas um filme em torno de traumas, arrependimentos, culpas, perdas jamais superadas e amores despedaçados por fantasmas do passado. É, antes de tudo, um filme centrado em pais, filhos e irmãos. Seu recorte dramatúrgico privilegia laços familiares entre homens, compondo habilidoso painel da afetividade masculina, aqui matizada pela fragilidade do protagonista Lee Chandler (Casey Affleck). Ao optar pelo aprofundamento da subjetividade do personagem, a narrativa coloca em primeiro plano – no ponto de partida do plot e as ações que emergem daí – a relação com o irmão que morreu e com o sobrinho que deve ficar sob sua tutela. A partir deste tour de force, a estrutura do filme desvela as motivações do protagonista, pelo recurso do flashback a pontuar a narrativa e acenar para eventos do passado que elucidam o deslocamento do personagem quando regressa à cidade natal.

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Enquanto a direção consegue criar uma atmosfera de carga emocional densa pela dilatação de planos estáticos que potencializam as atuações, é nítido o desequilíbrio entre o que o filme revela do protagonista junto com as relações que estabelece com personagens secundários masculinos e o que o filme vislumbra das personagens femininas que orbitam o núcleo principal. Se o cinema pode ser pensado como uma questão de enquadre, o gesto cinematográfico compõe uma dialética entre aquilo que evidencia e aquilo que deixa fora de campo. Qual enquadre está em jogo em Manchester à Beira-Mar? O que o filme escolhe transparecer e o que ele torna opaco?

Como história familiar em que homens são o toque de midas da trama, o longa-metragem de Lonergan restringe em segundo plano as personagens femininas e embota qualquer densidade possível que elas eventualmente poderiam ter. A dramaturgia não viabiliza acesso à trajetória de Randy (Michelle Williams), a ex-esposa de Lee, que passou pelo mesmo trauma que o protagonista. Na primeira vez em que a personagem se insere na narrativa, ela é apresentada prostrada na cama, doente e aparentando ser uma mãe desleixada no cuidado da casa e dos filhos. No segundo momento, ela se impõe ao marido, quando exige que todos seus amigos parem de fazer barulho e acabem com a farra para não atrapalhar o sono dos filhos. No tempo presente, ela se encontra casada com outro homem e mãe de um bebê. Não há mais nada na construção da personagem de Randy que alcance outro lugar que não seja o da mulher dependente afetivamente de um marido e da condição de mãe.

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A sequência do encontro entre Randy e Lee poderia ser o único instante da narrativa em que nuances da subjetividade de Randy viriam à tona. No entanto, o choro desesperado dela não escapa do esquematismo plano da personagem e serve apenas de muleta para adensar a fragilidade do protagonista. O espectador jamais vai saber o quanto foi terrível para Randy absorver o peso da morte dos filhos e a distância do ex-marido que ela confessa ainda amar. Quando é feita a declaração de amor, a conversa acaba. Não é dada nenhuma oportunidade para a personagem contar sua versão dos fatos ou desvelar sua própria história, porque o filme está preocupado somente com o modo como o trauma afetou seu protagonista.

Outra personagem feminina arremessada em segundo plano é Elise (Gretchen Mol), a mãe de Patrick (Lucas Hedges), sobrinho de Lee. Sua primeira aparição na narrativa joga ao espectador a imagem de uma mulher histérica, que interrompe a todo o momento os demais personagens e não consegue compreender a condição de saúde do marido. Na próxima sequência em que Elise aparece, seu corpo nu está fora de foco, esparramado no sofá, sugerindo estar em coma alcoólico – dado confirmado em fala posterior de Patrick sobre a mãe. Ao final, Elise retoma contato com o filho, quando aparenta ter encontrado uma vida estável ao lado de um pastor (Matthew Broderick). Trata-se da representação clichê da mulher que, outrora desequilibrada emocionalmente, encontra paz ao se casar com um homem religioso que ilumina seu caminho e a salva de qualquer desvio. Jamais saberemos a fundo as motivações do descontrole de Elise – instabilidade que não desapareceu, mesmo dentro de uma suposta rotina pacata e ascética.

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Mais adiante, o que é possível falar das adolescentes que cercam o cotidiano de Patrick, se elas apenas são apresentadas nas situações de fruição sexual do personagem? As garotas não são capazes de qualquer conversa digna de atenção, porque interessa à narrativa que elas sejam usadas como índices da caracterização de Patrick, um jovem a descobrir sua própria sexualidade. Os assuntos íntimos – da perda do pai, da ausência da mãe – são compartilhados exclusivamente com o tio, que detém o merecimento verbal para tocar nestes temas. Tal julgamento de gênero inclusive é perceptível na sequência em que a mãe de uma das adolescentes demonstra desconforto por não conseguir conversar com Lee.

Se Manchester à Beira-Mar é um filme em torno de pais, filhos e irmãos, ele se desinteressa por qualquer alteridade que possa afetar a harmonia destes laços e repele as mulheres, que permanecem encarceradas nas bordas da narrativa. Pior que isto: todo o esforço de estrutura dramatúrgica mantém sob seu controle personagens opacas, sem multidimensionalidade e instrumentalizadas a serviço de uma história que só é concedida a eles. É desta maneira que mais um filme hollywoodiano contribui para a cristalização limitadora da representação da mulher, ancorada pela miopia de seu próprio enquadre.

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2 comentários em “Uma questão de enquadre: as mulheres de “Manchester à Beira-Mar”

  1. Sou mulher e amei esse filme! Sinceramente não acho qualquer fundamento em suas colocações; porque isso, “uma questão de enquadre” não é o foco do filme, ele centra um personagem e o “seu drama” particular e esse personagem é um homem, ponto final. Simples assim, por que complicar supondo que as mulheres aqui são inferiores, infelizes e dependentes? Uma conexão sem qualquer relevância, mas carregado de ranço! Qualquer um percebe que a perspectiva da narração é o universo masculino e como eles lidam com as emoções e suas consequências quando mal resolvidas! De qualquer forma, é interessante saber que você “viu” essas mulheres em Manchester à Beira-Mar…eu não! Ponto de vistas diferentes!

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