“Um grande silêncio” [Un grand silence, França/Bélgica, 2016] de Julie Gourdain

O ano é 1968 e Marianne (Nina Mazodier) de apenas dezenove anos foi enviada a um internato para jovens garotas. Nessa espécie de reformatório, ela conhece outras mulheres que comungam de um segredo que poderia mudar radicalmente suas vidas. Sem muitas explicações acerca do funcionamento daquela instituição, Julie Gourdain, em seu primeiro curta-metragem, constrói um roteiro que abarca toda a hipocrisia social diante da maternidade.

O aborto foi legalizado na França em 1975 e é permitido até as doze semanas de gestação, a pedido da mulher, caso não tenha condições para ser mãe por razões sociais ou econômicas. Ou ainda em caso de risco de morte ou saúde física da mulher, bem como em caso de risco de malformação do feto. No Brasil, esse ainda é um debate permeado por tabus religiosos que emperram a sua implementação, tendo em vista que deveria ser encarado em sua amplitude social, na medida em que sua regulamentação visa abarcar um problema de saúde pública.

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Em “Um grande silêncio” (2016) o aborto é abordado de forma oblíqua, já que os pais da protagonista a afastam do convívio com seus amigos e familiares alegando que ela fora fazer um tratamento de saúde, quando na verdade, a “doença” era uma gravidez indesejada. Trabalhos forçados, isolamento social, falta de espelhos fazem com que aquelas mulheres não se vissem, nem fossem vistas, para que assim não pudessem desenvolver qualquer vínculo com seus bebês. Essas relações (ou a ausência delas) vão se desenhando em um cenário frio, azulado e estéril, como a realidade daquelas jovens mulheres passa a ser. Há uma suspensão no tempo, como se a vida desse uma pausa para a perpetuação da espécie, porém sem a continuidade para o desenvolvimento dos nascituros. Bebês que já nascem órfãos, posto que contra a prisão dos corpos vistos como simples manjedouras é impossível lutar.

Por fim, mas não menos interessante, Gourdain ainda traça um tímido paralelo sobre a questão de classe, mostrando como diferentes estratos sociais lidam com aquela privação da gestação. Enquanto para umas era uma arbitrariedade e uma prisão, para outras era a única possibilidade de se manter viva, já que, sem recursos, não poderiam sustentar sozinhas a sua prole. Numa clara alusão crítica ao machismo que domina a nossa sociedade, não vemos qualquer homem em cena e a única vez que o pai da protagonista é mencionado numa ligação telefônica é para deixar claro que quem detém o controle sobre os corpos das mulheres ainda é o homem.

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O filme está em competição dentro da Mostra “A woman’s life” do My French Film Festival 2017 e pode ser visto de graça online até 13 de fevereiro no link: http://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/

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