A Odisseia de Alice [Fidelio, l’odyssée d’Alice, França, 2016] de Lucie Borleteau.

Quantos filmes cuja protagonista é uma mulher marinheira você já viu? “A Odisseia de Alice” de Lucie Borleteau nos faz pensar se realmente é preciso que seja uma mulher a dirigir um filme para que este argumento seja transformado em roteiro. Impossível não pensarmos no livro “A guerra não tem rosto de mulher” de Svetlana Aleksiévitch, onde ela desmistifica a imagem de mulheres nos campos de batalha tal qual comumente vemos representada nas artes. Ao reescrever a história da Segunda Guerra Mundial sob a perspectiva de um protagonismo feminino, a autora dá voz a mulheres que ocuparam funções de franco-atiradoras, pilotas de tanque, soldadas que efetivamente lutaram contra as tropas nazistas de Hitler.

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Em “A Odisseia de Alice”, apesar de não remeter a nenhuma guerra, a diretora também mexe com o imaginário do espectador que raramente vê um filme em que a protagonista é uma engenheira que abre mão do convívio diário com familiares, amigos e namorado em prol de uma carreira profissional embarcada por meses em enormes navios cargueiros. Que se masturba pensando no namorado, que se aventura em cada porto afirmando que já teve relações sexuais nos cinco continentes, que vive um triângulo amoroso, mas sem jamais perder de vista a sua individualidade e seu foco maior que é a sua realização profissional. O combustível afetivo é, portanto, a mola mestra das relações dentro de um navio batizado de “Fidelio”. Inspirada por experiências contadas por terceiros, a ideia inicial era rodar um documentário sobre essa personagem extremamente interessante, mas foi na ficção que Ariane encontrou o melhor caminho para contar a sua história.

O roteiro assinado por Borleteau, Clara Bourreau e Mathilde Boisseleau é simples, mas extremamente eficiente, onde temas como fidelidade (aproveitando-se o nome do navio onde se passam 90% das filmagens), cultura do estupro, relações de poder em âmbito profissional, questões de gênero e sexualidade frente a liberação da mulher moderna são costurados de forma naturalista, sem qualquer fetichização ou tom feminista panfletário. A direção segura de Borleteau utiliza bem as locações e transforma o próprio navio em personagem na medida em que seus enquadramentos e o modo como os corpos são filmados dão o tom da narrativa.

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Outro ponto alto do filme é a excelente atuação de Ariene Labed, que lhe rendeu inúmeros prêmios, como no Festival de Locarno (2014). Curiosamente, a atriz costuma escolher papéis que fomentam o debate sobre a representação da mulher na sociedade, como o grego “Attenberg” (2010) de Athina Rachel Tsangari e o francês “The Stopover” das irmãs Delphine e Muriel Coulin. Neste último, Ariene interpreta uma soldada no pós guerra.

Apesar da cena final mostrar uma certa ambiguidade quanto aos sentimentos da protagonista, a diretora, neste seu longa-metragem de estreia, recebeu inúmeros prêmios com destaque para melhor filme de estreia no César (2015), o prêmio da Imprensa Francesa (2014) e o prêmio especial de cinema europeu na competição pelo Leopardo de Ouro no Festival de Locarno (2014).

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