CANNES 2016: Como o Festival usa uma matemática equivocada para justificar a falta de cineastas mulheres

Veja se você pode situar esta clássica citação do Festival de Cinema de Cannes: “O trabalho das feministas e de pessoas como eu, que amo o trabalho de cineastas mulheres, é dizer-lhe: “Tem certeza de que não há sequer filmes dirigidos por mulheres em algum lugar que mereça estar competindo? Essa é sempre a conversa que voltamos a ter aqui.”

Isso é o que o então Presidente do Festival de Cannes, Gilles Jacob, disse em 2012, após o elogiado Festival ter sido levado à tarefa de desvendar o porquê de a competição não ter incluído uma única cineasta mulher. A pessoa em questão a quem Gilles se dirigiu na famosa citação acima foi o diretor (de curadoria) do festival, Thierry Fremaux, que, quatro anos mais tarde, ainda se opõe ao conceito de que o festival pode ter que cavar um pouco mais para encontrar filmes dirigidos por mulheres dignos de estar na Competição do Festival de Cannes.

Jacob se afastou em 2015, com Pierre Lescure assumindo o cargo de presidente; mas Fremaux continua a ser o diretor do festival. Após o anúncio da programação deste ano, Fremaux tentou explicar o seu pensamento para o ‘Screen Daily’ com estatísticas que reforçaram o seu ponto: “Não há ainda cineastas mulheres o suficiente para justificar uma maior representação no Festival.”

Ele se justificou declarando: “Nove dos 49 cineastas [no Festival de 2016] são mulheres, o que representa 20% da seleção. E qual seria a porcentagem de mulheres cineastas no mundo? De acordo com um relatório recente, é de 7%. Eu tenho dito isso por quatro anos, mas o que você vê agora em Cannes é uma conseqüência, não a causa. Mais precisa ser feito nas escolas de cinema, nas universidades e nas casas de produção, para favorecer as mulheres, e então você veria resultados.”

Entretanto, a matemática de Fremaux é equivocada. Um olhar mais profundo sobre o quadro da competição revela apenas três cineastas dirigindo solo (sem codireção com um homem) dos 21 filmes selecionados (ou seja, 14%), e o último relatório do ‘Centro para o Estudo das Mulheres na Televisão e Cinema’ estima que as cineastas de sexo feminino giram em torno de 9% da indústria.

Seria útil também para Fremeux olhar mais de perto os números que representam filmes independentes, não produções de estúdio, como aqueles que compõem apenas alguns da programação anual do Festival. Nesse sentido, um estudo recente, também do Centro, relata que, no mundo ‘indie’, as mulheres representam cerca de 28% de todos os diretores.

Apesar de um acompanhamento pobre de registros quando se trata de oferecer vagas a cineastas em Festivais no mundo, Cannes chegou a abraçar/apostar em algumas ao longo dos anos, incluindo Jane Campion (que mais tarde serviu como presidente do júri de Cannes), Sofia Coppola e Emmannuelle Bercot, cujo filme “De Cabeça Erguida” abriu o festival no ano passado (era apenas o segundo filme dirigido por uma mulher a fazê-lo, e foi colocado fora da competição).

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“Cinco Graças”, de Deniz Gamze Ergüven.

As cineastas têm encontrado mais vagas na seção da Mostra ‘Un Certain Regard’ para filmes que poderiam facilmente ter sido lançados na competição principal, como Alice Winocour, que já teve um curta e dois longas no Festival (dela mais recente, o “Cinco Graças” vencedor do César, que escreveu para a diretora Deniz Gamze Ergüven, e que acabou não sendo exibido em Cannes, apesar do forte hype por ter sido um nome quente na temporada de premiações).

Anjelica Huston trouxe seu louvado “Marcas do Silêncio” para o festival em 1996, que também foi exibido na Mostra ‘Un Certain Regard’. Natalie Portman estreou como diretora com “De Amor e Trevas” que teve apenas uma única exibição especial no Festival do ano passado. E em 2013, Claire Denis teve seu filme “Bastardos”, seu décimo segundo filme, relegado à Mostra ‘Un Certain Regard’ fora da competição.

Embora o Festival deste ano tenha incluído três títulos em competição de cineastas mulheres – “Docinho da América” de Andrea Arnold, “From the Land of the Moon” de Nicole Garcia estrelado por Marion Cotillard e o sucesso mundial “Toni Erdmann” de Maren Ade – o Festival não está nem perto da paridade. Outras realizadoras presentes no festival incluem Jodie Foster, fora da competição com seu “O Jogo do Dinheiro” com elenco estrelado, as irmãs Coulin (Delphine e Muriel Coulin) com “The Stopover” e uma noite de encerramento da Semana da Crítica que inclui curtas-metragens de três atrizes-que-viraram-cineastas.

O Festival, no entanto, encontrou números mais equilibrados quando se trata do júri que vai escolher o vencedor da Palma de Ouro, que incluiu quatro mulheres em nove juízes totais este ano: Kirsten Dunst, Vanessa Paradis, a atriz e diretora Valeria Golino e a produtora de filmes Katayoon Shahabi. Da mesma forma, o júri Cinefondation e Short Films foi liderado este ano pela Cineasta Naomi Kawase (que já mostrou o seu trabalho em Cannes seis vezes, ganhando o Camera d’Or de direção em 1997), cujo Júri de cinco pessoas inclui uma outra mulher, a atriz Marie-Josee Croze.

Cannes é um festival que ainda se apoia no ‘status quo’ ao invés de avançar na conversa, e isso se revela na sua dificuldade para apresentar mais cineastas mulheres. Da mesma forma, Fremaux não está errado quando observa que a falta de igualdade é endêmica para a indústria, e começa muito antes de muitas cineastas mulheres começarem a filmar (ou, em muitos casos, nem conseguirem começar) para inscrever um filme que poderia ser considerado para a competição do Festival, ele subestima terrivelmente o poder que Cannes exerce como um ditador de tendências e novos padrões no mundo de Festivais. Se Cannes não for implacável e propositadamente prosseguir procurando trabalhos de alta qualidade de cineastas mulheres, que tipo de mensagem estará transmitindo ao resto da indústria mundial do cinema?

Traduzido da matéria de Kate Erbland para o site IndieWire.

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